Ingrid
Na noite de 23 de fevereiro de 2002 em que seria seqüestrada, passei um e-mail para Ingrid Betancourt
Recebi com alegria, obviamente, a notícia de que Ingrid Betancourt havia sido resgatada, com outros 14 reféns, do jugo em que a mantinha as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Mas tenho um motivo particular, praticamente só meu, para comemorar a libertação dessa brava mulher.
Diria que tenho até motivos íntimos para escrever hoje sobre o assunto. Explico. No início da noite do dia 23 de fevereiro de 2002, um sábado, passei um e-mail para a senadora Ingrid Betancourt, então candidata à presidência da Colômbia. Naquele mesmo dia eu havia acabado de ler o livro que ela escrevera, o autobiográfico Coração Enfurecido, recém-lançado no Brasil no início daquele ano. Ainda contagiado pela narrativa, propunha à autora, no e-mail, que me concedesse uma entrevista, para ser publicada aqui mesmo, no DIÁRIO. Em 2002, os colombianos iriam às urnas das eleições presidenciais em meio a uma guerra civil que já durava mais de quatro décadas.
Filha de um diplomata e ex-ministro da Educação na Colômbia, Ingrid, colombiana de nascimento, cresceu em um apartamento situado num dos bairros mais grã-finos de Paris. E cresceu cercada de políticos, artistas e intelectuais amigos de seus pais, que, de passagem pela capital francesa, paravam para uma prosa com o diplomata.
Entre esses visitantes podiam estar, por exemplo, o poeta Pablo Neruda, o romancista Gabriel García Márquez de Cem Anos de Solidão ou o pintor Fernando Botero, um ex ou futuro presidente colombiano ou um Prêmio Nobel de Literatura, como o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. O futuro político da Colômbia era o assunto principal dessas conversas, que ela, criança ainda, costumava ouvir, às vezes escondida embaixo do piano da sala (para não ser vista e de novo mandada para a cama, face o adiantado da hora).
Certa vez, ainda bem jovem, ouviu do pai essas palavras: “Sabe, Ingrid, a Colômbia nos deu muito. Foi graças a ela que você conheceu a Europa, freqüentou as melhores escolas e viveu num luxo cultural que colombianozinho algum jamais vai conhecer. Todas essas possibilidades de que você se beneficia fazem com que você tenha uma dívida para com a Colômbia. Não se esqueça disso”.
Ao que parece, Ingrid não esqueceu. Nascida em 1961, mais tarde ela decide – talvez movida pelo que guardou das conversas escutadas sob o piano (“acho que minha vocação política nasceu embaixo desse piano de cauda”) e pelas palavras do pai – largar uma promissora carreira acadêmica na França, um casamento estável ao lado do marido francês, também diplomata, e retornar ao país natal.
“Separo-me de Fabrice, faço as malas e parto, sozinha, para Bogotá. Sei perfeitamente os sofrimentos que me esperam, o afastamento de meus filhos, a dor de não ter conseguido salvar minha família, como mamãe, ironia do destino, que, quinze anos antes, desfizera a sua, mas tenho a certeza de que é o preço a pagar para reencontrar afinal um lugar entre os meus”, escreve em Coração Enfurecido.
De volta à Colômbia, Ingrid seria eleita, em 1995, deputada e depois senadora, com base em sua luta contra os cartéis de droga e o dinheiro sujo do narcotráfico, que gangrena a vida política de seu país, e que ela diz ser “a Aids da Colômbia”. Ingrid sabia dos riscos que corria. Ameaçada de morte, mandou os filhos para a Austrália, onde mora seu ex-marido. E candidatou-se à presidência.
Pois bem. No dia em que mandei minha mensagem, naquela mesma noite de sábado, 23 de fevereiro de 2002, a senadora foi seqüestrada por rebeldes das Farc. O fato só foi noticiado pela imprensa brasileira no dia seguinte. Vocês podem imaginar a minha surpresa, susto mesmo.
O episódio me revelou, intimamente, o quanto a Colômbia pode estar próxima de nós, e não só geograficamente. Se já não estávamos longe em 2002 do que acontecia por lá, hoje nos transformamos, de vez, num país refém da criminalidade.
A leitura do livro me aproximou de Ingrid Betancourt. Pena que, naquela noite, ela não tenha podido responder à mensagem que lhe enviei. Mas espero que agora, depois do alto e duro preço pago por ter voltado ao seu país e assumido a luta por seu povo, ela possa enfim reencontrar e estar entre os seus.
ENCRUZILHADA
A Santa Casa de Misericórdia do Pará é o princípio e o fim desse alarmante episódio da morte de recém-nascidos. Como fim, a Santa Casa é o destino, desaguadouro da degradante saúde pública estadual, sacrificada por anos de descaso. Para quem se dispõe realmente a salvar vidas no nascedouro, a Santa Casa é o princípio desse caminho, e basta seguir as pistas deixadas pelas mães que chegam para revelar as origens tanto do mal endêmico quanto do mau governo.
Fonte: Diário do Pará



