Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Elias Pinto !

Ingrid

Na noite de 23 de fevereiro de 2002 em que seria seqüestrada, passei um e-mail para Ingrid Betancourt


Recebi com alegria, obviamente, a notícia de que Ingrid Betancourt havia sido resgatada, com outros 14 reféns, do jugo em que a mantinha as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Mas tenho um motivo particular, praticamente só meu, para comemorar a libertação dessa brava mulher.

Diria que tenho até motivos íntimos para escrever hoje sobre o assunto. Explico. No início da noite do dia 23 de fevereiro de 2002, um sábado, passei um e-mail para a senadora Ingrid Betancourt, então candidata à presidência da Colômbia. Naquele mesmo dia eu havia acabado de ler o livro que ela escrevera, o autobiográfico Coração Enfurecido, recém-lançado no Brasil no início daquele ano. Ainda contagiado pela narrativa, propunha à autora, no e-mail, que me concedesse uma entrevista, para ser publicada aqui mesmo, no DIÁRIO. Em 2002, os colombianos iriam às urnas das eleições presidenciais em meio a uma guerra civil que já durava mais de quatro décadas.

Filha de um diplomata e ex-ministro da Educação na Colômbia, Ingrid, colombiana de nascimento, cresceu em um apartamento situado num dos bairros mais grã-finos de Paris. E cresceu cercada de políticos, artistas e intelectuais amigos de seus pais, que, de passagem pela capital francesa, paravam para uma prosa com o diplomata.

Entre esses visitantes podiam estar, por exemplo, o poeta Pablo Neruda, o romancista Gabriel García Márquez de Cem Anos de Solidão ou o pintor Fernando Botero, um ex ou futuro presidente colombiano ou um Prêmio Nobel de Literatura, como o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. O futuro político da Colômbia era o assunto principal dessas conversas, que ela, criança ainda, costumava ouvir, às vezes escondida embaixo do piano da sala (para não ser vista e de novo mandada para a cama, face o adiantado da hora).

Certa vez, ainda bem jovem, ouviu do pai essas palavras: “Sabe, Ingrid, a Colômbia nos deu muito. Foi graças a ela que você conheceu a Europa, freqüentou as melhores escolas e viveu num luxo cultural que colombianozinho algum jamais vai conhecer. Todas essas possibilidades de que você se beneficia fazem com que você tenha uma dívida para com a Colômbia. Não se esqueça disso”.

Ao que parece, Ingrid não esqueceu. Nascida em 1961, mais tarde ela decide – talvez movida pelo que guardou das conversas escutadas sob o piano (“acho que minha vocação política nasceu embaixo desse piano de cauda”) e pelas palavras do pai – largar uma promissora carreira acadêmica na França, um casamento estável ao lado do marido francês, também diplomata, e retornar ao país natal.

Separo-me de Fabrice, faço as malas e parto, sozinha, para Bogotá. Sei perfeitamente os sofrimentos que me esperam, o afastamento de meus filhos, a dor de não ter conseguido salvar minha família, como mamãe, ironia do destino, que, quinze anos antes, desfizera a sua, mas tenho a certeza de que é o preço a pagar para reencontrar afinal um lugar entre os meus”, escreve em Coração Enfurecido.

De volta à Colômbia, Ingrid seria eleita, em 1995, deputada e depois senadora, com base em sua luta contra os cartéis de droga e o dinheiro sujo do narcotráfico, que gangrena a vida política de seu país, e que ela diz ser “a Aids da Colômbia”. Ingrid sabia dos riscos que corria. Ameaçada de morte, mandou os filhos para a Austrália, onde mora seu ex-marido. E candidatou-se à presidência.

Pois bem. No dia em que mandei minha mensagem, naquela mesma noite de sábado, 23 de fevereiro de 2002, a senadora foi seqüestrada por rebeldes das Farc. O fato só foi noticiado pela imprensa brasileira no dia seguinte. Vocês podem imaginar a minha surpresa, susto mesmo.

O episódio me revelou, intimamente, o quanto a Colômbia pode estar próxima de nós, e não só geograficamente. Se já não estávamos longe em 2002 do que acontecia por lá, hoje nos transformamos, de vez, num país refém da criminalidade.

A leitura do livro me aproximou de Ingrid Betancourt. Pena que, naquela noite, ela não tenha podido responder à mensagem que lhe enviei. Mas espero que agora, depois do alto e duro preço pago por ter voltado ao seu país e assumido a luta por seu povo, ela possa enfim reencontrar e estar entre os seus.

ENCRUZILHADA

A Santa Casa de Misericórdia do Pará é o princípio e o fim desse alarmante episódio da morte de recém-nascidos. Como fim, a Santa Casa é o destino, desaguadouro da degradante saúde pública estadual, sacrificada por anos de descaso. Para quem se dispõe realmente a salvar vidas no nascedouro, a Santa Casa é o princípio desse caminho, e basta seguir as pistas deixadas pelas mães que chegam para revelar as origens tanto do mal endêmico quanto do mau governo.

Fonte: Diário do Pará

CM News - Publicações (link) !

Sacrifício para exercer a Medicina

04/07/2008 - UFC iniciará processo de revalidação de diploma na próxima segunda. Há médicos acampados desde domingo

Sara Pillaca é peruana, estudou medicina na Bolívia e hoje mora no Brasil com o marido Rogério Machado, brasileiro e também médico, formado na mesma universidade que a esposa estudou. Depois de formados, eles vieram para o Brasil, junto com o filho pequeno. Mas estão impedidos de exercer a profissão que escolheram e sonharam para suas vidas porque ainda não conseguiram a revalidação do diploma.

Eles são dois dos cerca de 150 médicos formados em outros países que aguardam acampados, em frente à entrada principal do Campus do Pici, o início do processo de revalidação de diploma da Universidade Federal do Ceará (UFC), que se inicia na próxima segunda-feira, 7 de julho.

Os médicos apontam que essa dificuldade de revalidação acontece porque o Brasil não dispõe de uma legislação específica que oriente o processo de avaliação dos diplomas de profissionais formados em universidades de outros países. O que acontece, segundo os profissionais, é que a revalidação só pode ser feita por universidades federais e, como são autônomas, têm a liberdade para estabelecer critérios próprios de avaliação, sem seguir normatização estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC).

Os acampados no Campus do Pici são brasileiros e estrangeiros que estudaram em instituições de países da América do Sul e Central, além da Europa. Permanecem, alguns desde domingo passado, em barracas de camping, passando o dia e a noite ao ar livre, sob a sombra de árvores, para garantir um local na fila, já que o edital que rege o processo de revalidação na UFC prevê a avaliação dos primeiros 60 candidatos nos próximos seis meses.

Por causa disso, se organizaram de forma civilizada para que a questão da fila seja obedecida e, quem chegou primeiro, tenha o seu direito assegurado. Instituíram crachás com números e fazem chamadas quatro ou cinco vezes por dia. O candidato só pode ser substituído por um representante durante aproximadamente quatro horas e deve permanecer no local para respaldar sua colocação na fila, gerando tensão e uma fadiga enorme.

Por outro lado, os médicos têm pressa em trabalhar e sair de uma situação ilegal de clandestinidade e preconceito. Muitos confirmaram que, mesmo sem diploma revalidado e sem registro no Conselho Regional de Medicina, chegaram a exercer a profissão. Se confinam em municípios do Interior onde os profissionais formados no Brasil não querem trabalhar. Vivem escondidos, com medo da fiscalização da Polícia Federal, e se submetem a regimes de trabalho exploradores, com uma carga horária estafante e salários bem inferiores ao que se pagam a outros profissionais em situação legal.

Outros simplesmente não se arriscam em exercer a medicina ilegalmente e correm o Brasil em busca de validar seus diplomas de médico em universidades que abrem processo seletivo. “Já fiz provas na Universidade de Brasília e na Federal de Minas Gerais. Não quero exercer minha profissão na clandestinidade. Em cada universidade, o processo muda. Sempre somos tratados de forma muito preconceituosa. Mas aqui na UFC foi diferente. Todo dia vem alguém da universidade saber se a gente precisa de alguma coisa”, disse, sem querer se identificar, um médico gaúcho que se formou na Fundação Barcelló, na Argentina.

Para ele, trata-se de uma situação muito constrangedora. O jovem médico escolheu a Argentina porque já tinha conhecimento de pessoas que estudavam lá e, na época em que entrou no curso, ainda vigorava um acordo no qual o Brasil e outros países da América do Sul e Caribe revalidavam diplomas automaticamente, o que foi finalizado em 1998.

PEDIDOS DE REVALIDAÇÃO
Ceará supre carência nacional

A Universidade Federal do Ceará (UFC) assumiu o compromisso de avaliar cerca de 60 pedidos de revalidação de diplomas de médicos que se formaram em outros países a cada seis meses. A informação é do pró-reitor de Graduação da instituição, professor Custódio de Almeida.

Conforme ele, não há limitação para pedidos de revalidação de diplomas. Entretanto, acrescenta o professor, o motivo da fila decorre da existência de prazos a serem cumpridos e de um vácuo criado pela ausência de legislação no País que regule isso, uma vez que nem todas as universidades federais oferecem o serviço.

Custódio de Almeida explica que a UFC vai informar ao Ministério da Educação sobre os médicos acampados, na medida em que possa contribuir para acelerar a criação de legislação específica para a revalidação dos diplomas de pessoas que estudaram fora do País. Por outro lado, disse que as universidade são autônomas e podem deliberar a periodicidade e como será avaliação.

Os médicos acampados apontaram que a grande procura pela UFC deve-se à credibilidade da universidade na avaliação para revalidação de diplomas e também porque no último processo, que começou em 2005, foram analisados 698 pedidos de revalidação de diplomas, durante três anos.

O pró-reitor de Graduação disse, ainda, que os critérios da UFC são realmente bem avaliados pelo MEC. Mas, considera, no entanto, que o fato da maioria das instituições federais não oferecerem o serviço de revalidação de diplomas acaba expondo as que realizam, como a UFC, que agora tem cerca de 150 médicos acampados na porta de um de seus campi.

O pró-reitor destaca que a segurança institucional da UFC está presente 24 horas para dar guarida aos profissionais, que estão expostos ao tempo, na entrada do Campus do Pici.

CREMEC
Registro só mediante diploma

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (Cremec-CE), Ivan Moura Fé, diz que nenhum médico pode exercer a profissão sem ter registro no órgão, e isso depende de apresentação de diploma de graduação aceito pelo Ministério da Educação, o que não é o caso dos médicos formados em outros países. “Trabalhar sem esse respaldo é ilegal, sujeito a penalidades”, disse, acrescentando que qualquer profissional formado em outro País deve seguir as normas de onde escolheu trabalhar.

A preocupação do presidente do Centro Acadêmico XII de Maio, da Faculdade de Medicina, Roberto Ribeiro Maranhão, é com a qualidade e não com a concorrência. “Não se trata de concorrência, já que existe realmente uma carência de médicos, principalmente para atuar na atenção primária”. Segundo ele, cerca de 80 médicos que passaram no concurso para o Programa de Saúde da Família desistiram da vaga.

PROTAGONISTA
Da clandestinidade, em busca da liberdade

Mitônio Pimentel

Filho de uma dona-de-casa e de um agricultor, o acreano de Brasiléia, Mitônio Pimentel, era policial militar. Como na sua cidade não tinha curso de Medicina, conseguiu uma bolsa de estudos e foi estudar na Bolívia, em Cochabamba, que fica a mais de mil quilômetros de Brasiléia. Com muita dificuldade, formou-se na profissão tão sonhada. Até hoje só conseguiu trabalhar na clandestinidade. Para participar da avaliação de revalidação do seu diploma, na UFC, vai pagar R$ 1.500,00. Viajou dez dias de ônibus para chegar a Fortaleza, mas conseguiu o 14º lugar da fila.

Paola Vasconcelos
Repórter

Fonte: Diário do Nordeste / CE

Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Raimundo José Pinto (link) !

Árvore multimídia alerta em Bruxelas contra destruição da floresta.

Europa pode adotar nova legislação contra madeira ilegal

O Greenpeace expôs na quarta-feira (2), em frente à sede da Comissão Européia, em Bruxelas, uma árvore centenária da espécie tauari que recebeu, em seu interior, nove monitores de vídeos com projeções de imagens de beleza e destruição da floresta amazônica. A instalação multimídia, realizada pelo artista brasileiro Siron Franco, destaca o papel da Europa na destruição das florestas e a necessidade urgente de se adotar uma nova lei para combater a exploração e o comércio de madeira ilegal.

O tronco, de 12 metros, foi retirado pelo Greenpeace em outubro de 2007 de uma área ilegalmente desmatada no sul do Amazonas para compor uma exposição itinerante destacando o papel da floresta na manutenção da biodiversidade e do equilíbrio climático do planeta. Ainda neste mês, a Comissão Européia votará se adota ou não uma nova legislação contra madeira ilegal.

A União Européia importa, todos os anos, milhões de toneladas de madeira da Amazônia, do Sudeste Asiático e do Congo, regiões conhecidas pelo descontrole na produção de madeira que, em última instância, resulta em altas taxas de desmatamento. A perda de cobertura florestal, por sua vez, leva à dramática perda de espécies e conflitos sociais, além de contribuir com um quinto das emissões globais de gases de efeito estufa.

'A Europa é um dos maiores consumidores de madeira do mundo. Se permitimos a entrada de madeira ilegal no nosso mercado, então estamos contribuindo com forças que provocam a destruição da floresta', disse o comissário europeu para o Meio Ambiente, Stavros Dimas, durante visita à instalação.

'Por conta disso, vou apresentarem breve uma proposta para banir a venda de madeira e outros produtos madeireiros provenientes de fontes ilegais', revelou.

Rubens Gomes, presidente do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) e presidente do Conselho Diretor do FSC (Forest Stewardship Council ou Conselho de Manejo Florestal), que participou da atividade do Greenpeace em Bruxelas, ressaltou a importância da Europa em assumir sua responsabilidade para proteger as florestas e promover o uso responsável dos recursos.

'Além de deixar um rastro de destruição ambiental e alimentar conflitos sociais, madeira ilegal e predatória representa uma competição desleal com produtos madeireiros produzidos de forma responsável. É preciso criar mecanismos de controle de mercado para permitir que empresas madeireiras que respeitam padrões ambientais e sociais também possam se beneficiar dos investimentos que fazem', disse ele.

Em menos de três semanas, o presidente da Comunidade Européia recebeu mais de 66 mil abaixo-assinados de apoio à nova legislação, enviadas por cidadãos preocupados em assegurar que os produtos que consomem não resultem em destruição florestal.

'A União Européia deve adotar uma legislação rigorosa para banir o comércio de madeira ilegal se quiser proteger os remanescentes florestais, a biodiversidade e o clima global', diz Marcelo Marquesini, coordenador do programa de madeira do Greenpeace na Amazônia.

'Até os Estados Unidos, um dos maiores poluidores do mundo, já tomaram a iniciativa de aprimorar sua legislação visando combater a importação de madeira ilegal. A União Européia tem a chance de dar um passo além, adotando normas muito mais rígidas, cobrando das empresas madeireiras o respeito a severos padrões ambientais e sociais na produção e comércio de madeira, além de implementar um sistema de rastreamento que garanta a origem da madeira', afirma.

Jayme Ovalle na FLIP...

AZULÃO

Jayme Ovalle e Manoel Bandeira

Vai azulão, azulão
Companheiro, vai
Vai ver minha ingrata
Diz que sem ela
O sertão não é mais sertão
Ai, voa azulão
Vai contar companheiro, vai

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"Que um dia afinal seremos vizinhos
Conversaremos longamente
De sepultura a sepultura
No silêncio das madrugadas
Quando o orvalho pingar sem ruído
E o luar for uma coisa só."

(De Manuel Bandeira para Jayme Ovalle)

Programação de hoje, na FLIP :

mesa 4 - Conversa de botequim - HUMBERTO WERNECK, XICO SÁ Humberto Werneck acaba de publicar O santo sujo uma biografia de Jayme Ovalle – resultado de mais de dez anos de pesquisas sobre o compositor e poeta paraense que foi parceiro de Manuel Bandeira, amigo dos expoentes da geração modernista e adotou os bares da Lapa, no Rio de Janeiro, como morada. Xico Sá, jornalista cearense, colunista da Folha de S.Paulo e notívago contumaz, enverga o figurino de um Ovalle contemporâneo, ao mesmo tempo artista e articulador, bom de papo e querido por todos. Mediador: Paulo Roberto Pires.

O morenocris divulgou artigo de Elias Pinto sobre o assunto:

Elias Pinto(click)

O flanar, com Oliver(click)

O Tempo - Magazine(click)

E o post abaixo, com Ruy Vasconcelos, jornalista cearense.

Ruy Vasconcelos - Afetivagem !


Resenha não para mozarlescos: uma biografia só para Jayme Ovalle

Charles B. Kaufmann, Bird Control Strips, 1949



Vai, azulão, azulão, companheiro


O Santo Sujo – A Vida de Jayme Ovalle, por Humberto Werneck. Cosac & Naify. São Paulo, 2008, 400 ps.

Certamente quem lê poesia brasileira alguma vez na vida ouviu falar de Jayme Ovalle. Sempre indiretamente. Os mais atentos talvez hajam, quem sabe, escutado “Azulão” (“Vai, azulão, azulão/ companheiro, vai/ Vai ver minha ingrata [...]”) uma de suas canções com letra de Manuel Bandeira. Canção, aqui, no sentido do Lied. Ou seja, daquele gênero que se encontra a meio-termo entre o erudito e o popular e que foi consagrado por Schubert e Schumann. Aquele gênero em que a letra da canção tem fumos literários.
Com o escritor argentino Macedonio Fernández, Jayme Ovalle divide, além do nome exótico, o fato de haver sido mais famoso como personagem do que como autor. Mais como arte viva, em carne e osso, do que como criador de arte. Mas, sem dúvida, nesse aspecto “personagem”, Ovalle sobrepuja em muito Fernández, que ainda chegou a escrever uma obra copiosíssima se comparada ao modesto output do compositor brasileiro.
E, no entanto, Murilo Mendes, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino e Otto Lara Resende, entre muitos outros, referem-se a Ovalle com devoção, entusiasmo, prazer e aquela admiração desconfiada que nos induz à insegurança. A insegurança de estar diante de um gênio que simultaneamente é... um fiasco. Ovalle, que assomava brilhante na conversa, era incapaz de pôr essa conversa em prosa ou verso. E mesmo sua produção musical é bem escassa. Mario de Andrade dizia em carta a Manuel Bandeira: “a incapacidade de criação dele é fantástica”. Voltaremos a esta variante mais adiante.
Antes, é preciso dizer que Ovalle, esse músico (e poeta bissextíssimo), boêmio de cepa, era uma das mais espirituosas presenças nas mesas do velho, gentil Rio de Janeiro da época de Noel Rosa, Madame Satã e Manuel Bandeira.
Rosa e Bandeira foram devidamente biografados. Fizeram-se longas de ficção sobre o sambista de Vila Isabel e sobre o marrento travesti da Lapa. Um precioso curta sobre o autor de Estrela da Vida Inteira (O Poeta do Castelo) foi rodado por ninguém menos que Joaquim Pedro de Andrade, que era afilhado do poeta. Mas quase nada tínhamos de Ovalle.
Quer dizer, quase nada mais sitemático. Quase nada para além, claro, das várias, avulsas referências feitas a ele pela fina flor dos modernistas. Afinal, Ovalle é um tipo humano assim: avulso. E justo por passar longe de qualquer possibilidade de classificação. E é dessa avulsividade em que Ovalle veio, lenta e discretamente debatendo-se, ao longo de décadas, como personagem - nos versos, na prosa e na conversa epistolar dos escritores que amamos - que pesca-se essa bela biografia escrita por Humberto Werneck.
Ovalle era um paraense que enriodejaneirou-se cedo. Mas talvez não tão cedo quanto se insinua, pois, tendo nascido em 1894, chegou ao Rio apenas em 1911. E se cedo ganhou fama de excêntrico, sua excentricidade, no entanto, não se estendia à Alfândega, da qual foi funcionário exemplar. Seguia mais pelas mesas dos botecos da Lapa. Ou, por mesas antípodas, na Princesinha do Mar. Ovalle freqüentou com igual fervor os lupanares do Mangue e os bailes do Copacabana Palace. Por uns e por outros, construiu uma reputação inestimável de conversador ultra-espirituoso, inigualável bon-vivant. E teve namoradas que iam de prostitutas a socialites.
Entre as suas maiores “proezas” amorosas consta a de se haver apaixonado perdidamente por uma pomba que freqüentava o batente de sua janela. Tinha acessos de ciúme. Como se não bastasse seu coração também bateu mais acelerado por um manequim da Rua Gonçalves Dias.
De um catolicismo bastante idiossincrático, Ovalle costumava entoar preces nada ortodoxas: “agradeço-te por mais uma noite de minha vida, bebendo, moderadamente, com soda e gelo, o meu uísque". Dado a diminutivos, seria o tipo ideal do brasileiro que a todos tutua e segue, impávido, adiante, incapaz de fazer inimigos: o próprio homem cordial em estado bruto. Sérgio Buarque, que o conheceu e foi seu amigo, deve tê-lo enxergado um tanto assim. Pelo poder de agregar e bem conviver, Ovalle foi uma espécie de Vinícius de Moraes. Mas sem a obra.
Aliás, Vinícius o chamava de “o místico”. E lhe escreveu uma elegia, “A Última Viagem de Jayme Ovalle”, em que descreve a Morte – naturalmente uma das idéias fixas do irreverente Ovalle – divertindo-se com a verve do boêmio paraense (“Foram por montes e por vales/ E tanto a Morte se aprazia/ Que fosse o mundo só de Ovalles/ E nunca mais ninguém morria[...]").
Grande era sua capacidade como phrase-maker. Bandeira, que lhe escreveu o “Poema só para Jayme Ovalle”, sentia-se tão à vontade com o amigo, que chegou a lhe confidenciar em carta, a propósito de novas amantes: “tenho fodido muito, que felicidade!”. Mas, por trás de tanto chiste e risadas há alguma chaga. E essa chaga - momento de contemplação quase extática diante de tanto prosaísmo e irreverência - é o que confere aos versos de nossos modernistas – aos de Bandeira, em sua elegante simplicidade - um escape ao barroco mais deslavado de que se compõe nossa cultura.
O mote do poema de Bandeira vem de Ovalle haver ido às lágrimas diante da solidão do poeta de “Canção do Beco” ao entrevê-lo a preparar seu próprio café, de manhã cedo, após uma noitada: o poeta franzino, de meia-idade, sozinho, preparando o seu café (“Quando hoje acordei ainda fazia escuro/[...]/Bebi o café que eu mesmo preparei/ Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando[...]”).
Não só Bandeira ou Vinícius compuseram poemas a partir de “sugestões” de Ovalle ou da espirituosidade de sua presença. Este também é o caso de Dante Milano. Mas as astúcias de Ovalle não se restringiam à inspirar poemas e compor raras pérolas ao piano, ele também foi um fino ironista. Ovalle esboçou um propalado modelo filosófico a que deu o nome de Nova Gnomonia. O modelo causou espécie pelo reductio ad absurdum e delicioso nonsense da coisa toda. A Nova Gnomonia classificava os homens em 5 categorias: exército do Pará, dantas, kernianos, morzalescos e onéssimos. As categorias não eram excludentes. Mas passar de uma para outra implicava traumas.
O exército do Pará é composto por “homenzinhos terríveis que vem do Norte para vencer” no Rio, sanguíneos e ambiciosos; os dantas são “homens de ânimo puro, nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso na vida”; os kernianos, “indivíduos de bom coração [...] mas que se deixam arrastar por um impulso irresistível de cólera”. Os mozarlescos revelam-se pomposos e grandiloqüentes, contudo quase nada dizem ou fazem de facto. Os onéssimos tem um caráter blasée, pouco entusiasmo sentem pelas coisas, vivem mudando de interesse, apesar de reagir com senso de dever diante de situações práticas.
O personagem demandava a biografia. A figura. A joie de vivre que semelha ser uma obra de arte na forma de uma vida. E dá o que pensar essa biografia assinada por Werneck. Pela pesquisa, pelo assunto, pela boa forma de sua escritura. Por tudo isso mais até do que por algumas de suas conclusões.
Como, por exemplo, a já citada incapacidade de Ovalle em traduzir sua imaginação delirante na forma de peças musicais ou de palavra escrita. Aqui, é preciso lembrar que não existe arte sem forma. E desde que Ovalle era incapaz de criar uma forma, ele não era, a rigor, um artista. Ele era isso, sim - e quando muito - uma espécie de “musa”, se se quiser. Arte é tradução, deslocamento. Quem é incapaz de transpor ou deslocar, é incapaz de criar. E, lembre-se, este não era inteiramente o caso de Ovalle. Ele era capaz de compor arte. Apenas em doses homeopáticas. E bote homeopáticas nisso se sua produção escassa é comparada à proficuidade de seus camaradas, que, de resto, eram os mais ressonantes escritores, músicos e artistas de seu tempo.
De outra forma, na biografia, Werneck atribui esse bloqueio criativo de Ovalle à sua formação deficiente. E é possível, de fato, que sua formação tenha sido deficiente. Mas é preciso lembrar que alguns de nossos mais finos escritores dessa época, caso de Graciliano Ramos, eram autodidatas, como Ovalle, e sequer passaram por uma faculdade. No caso de Graciliano, isso ainda se torna mais pungente pelo fato de ele só haver se mudado para o Rio compulsoriamente, depois de adulto e com um estilo já definido. É preciso parar, de uma vez por todas, de superestimar o potencial propedêutico da ambiência cultural Rio-Sampa. Isto, no entanto, não é uma crítica que se estenda propriamente a Werneck que, em livro passado, bem soube falar de certa geração de escritores mineiros que vieram sancionar no Rio suas respectivas carreiras.
Á sua feição, o que Ovalle deixou, apesar de pequeno em quantidade, não deixa de ser instigante. Nem tanto seus poemas quanto sua música, que é uma coleção de gemas raras: um poema sinfônico ("Pedro Álvares Cabral") e um belo ciclo de canções, onde se destacam "Modinha" e "Berimbau", entre outras também letradas por Bandeira. Essas obras, por se basearem em temas populares ou rituais, indicaram uma senda a aprofundar a um de seus caros amigos: Heitor Villa-Lobos.
Teses à parte, O Santo Sujo – A Vida de Jayme Ovalle, ricamente ilustrado, é um desses bons livros que passam bem e bem ao largo do universo acadêmico. Livros inteligentes, cheios de transes históricos e bem-temperada delicadeza diante de nossos escritores modernos. Livros que encontram seu patrono em Heródoto, o colecionador de histórias afluentes, refratário à simplória pobreza das explicações e nexos. Em especial se excessivamente tutelados por um sistema de idéias. E isso, num momento em que nossos escritores contemporâneos, ao invés de também interessarem-se por figuras do quilate e da estranheza de um Ovalle – profundamente entranhadas em nossa história – intoxicam-se de Blanchots, Derridas e Deleuzes em traduções duvidosas e só querem saber de debater “éticas levinasianas”, “dobras” e “indecibilidades” em pós-graduações insossas.
- Uns chato-boys! – diria Oswald.
- Uns mozarlescos! – diria Ovalle.

Diriam. Diríamos. Tarde e manhã. Um dia. Azulão, azulão, companheiro...

Elias Pinto !

Didi

Gosto muito de viajar porque o melhor momento da viagem é a hora em que volto para Belém”

Sei, celebra-se o cinqüentenário da conquista da Copa de 1958, mas vou falar de outro Didi, e não do grande criador da folha-seca e companheiro de Pelé, Garrincha e Nilton Santos.

É que na edição da segunda quinzena de junho de seu Jornal Pessoal, Lúcio Flávio Pinto relembra o colunista Edwaldo Martins, o nosso mestre Didi, que morreu no dia 18 de julho de 2003. Lúcio – que foi um dos mais próximos amigos de Edwaldo (literalmente, pois moravam no mesmo prédio) – registra, no artigo, que por várias vezes assumiu a interinidade da coluna que Didi publicava no jornal A Província do Pará. Já o comendador Raymundo Mário Sobral, no seu Jornaleco de ontem, informa que Fernando Jares Martins planeja organizar um livro sobre Edwaldo. Fernando e Sobral também foram interinos do colunista.

Aproveito a deixa para entrar de gaiato nessa lista. Fui igualmente interino do Didi, ainda que muito do vagabundo. Quando trabalhei na sua empresa de publicidade e relações públicas, o Edwaldo, antes de viajar, incumbia-me de providenciar umas notinhas, em geral, ligadas à cultura, à literatura, que eu repassava ao responsável pela elaboração da coluna na ausência do titular.

Conheci o Didi na década de 1970 e durante um bom período trabalhamos juntos na Província. Na sexta-feira, quando eu levava (houve uma época, para quem não sabe, que não existia e-mail e levávamos em mãos a coluna) meu texto dominical, ficava na fila de espera, aguardando, na sala do saudoso “seu” Wilson, o Edwaldo fechar sua página com o diagramador, o grande Teotônio.

Em seguida, furando a frente do Fernando Jares Martins – que assinava uma página de turismo e deveria ser o próximo da fila –, eu fechava com o Teotônio minha coluna de domingo.

Desconfio que realizei as duas mais extensas entrevistas concedidas pelo Edwaldo, verdadeiros depoimentos. A primeira para a revista Amazônia Hoje, a outra para a própria Província, a mais longa das duas, mas há muito não consigo localizá-la no meu labirinto de papéis.

Publico a seguir trechos da entrevista que consegui encontrar, a que Edwaldo me concedeu em dezembro de 1989, para a já extinta Amazônia Hoje. O bate-papo girou em torno dos 50 anos do jornalista e seus 21 anos de colunismo social nas páginas de A Província do Pará.

Edwaldo relembrou seu início na imprensa, no jornal Imparcial, dirigido, em 1955, por Ossian Brito. Tinha 16 anos de idade. Do Imparcial passou para o Flash, do Flash para a Folha do Norte, depois para A Vanguarda, quase sempre comentando sobre cinema. Depois é que vem o colunismo social. Diz o Edwaldo:

Eu tinha uma página que se chamava ‘Elas São Notícias’, n’A Província do Pará, onde falava de mulheres. Depois me dei com o Ubiratan Aguiar, então Pierre Beltrand. Passei a ser, inclusive, o interino dele na Província quando ele viajava, embora mantendo a minha coluna. Devo ter ido para A Província por volta de 1960. Até 63, mais ou menos, fui colaborador. Depois passei a escrever sobre mulheres. Aí houve uma reformulação, por volta de 66, 67. Nessa altura, começava no jornal uma pessoa chamada Lúcio Flávio Pinto. Ele escrevia uma coluna chamada ‘Quark’, e com a reformulação ficou acertado que eu teria de escrever uma coluna jovem, que se chamaria ‘Alegria, Alegria’, nome dado pelo Lúcio, bem como o ‘Em Frente’, que era o nome da minha coluna até um tempo atrás.”

Em seguida, Edwaldo, que adorava viajar, fala de sua cidade preferida:

Embora não domine o inglês, acho que em primeiro lugar existe uma cidade chamada Nova York; o resto é o resto. É a cidade que mais opções oferece. Gosto muito de espetáculos e Nova York é a que tem mais condições de te oferecer isso. Mas para morar, para viver, o melhor lugar do mundo ainda é Belém do Pará. Acho que gosto muito de viajar porque o melhor momento da minha viagem é a hora em que volto para Belém.”

Sobre o encontro nacional de colunistas sociais:

Não leva a nada, é só badalação. Tem muito picareta passando como colunista.”

Então é brega o encontro de colunistas sociais?, perguntei.

Diria que sim. É válido pelo fato de que você conhece a cidade e pessoas até interessantes, faz amizades. Lembro de um realizado em Brasília, organizado pela Consuelo Badra, que, naquela época, era talvez a colunista de maior poder no Brasil, porque era íntima do casal Dulce e João Figueiredo. A própria Dulce abriu as portas do Palácio da Alvorada para oferecer uma recepção. Aliás, esse encontro me valeu muito porque, como todo o Brasil, eu tinha uma imagem muito distorcida da Dulce Figueiredo. Te confesso que a partir do dia em que a conheci e com ela conversei demoradamente, achei-a uma criatura adorável, uma mulher personalíssima, uma das figuras mais interessantes que conheci. Enfim, chegaram até mesmo a criar uma associação, a Associação Brasileira de Colunistas Sociais, mas que ficou muito aquém da expectativa que eu tinha.”

Fonte: Diário do Pará

Ler.blogs (link) !

Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Quem não reservou...

A fila já é considerável às dez da manhã no palco principal da FLIP. Quem não reservou bilhetes para os debates "essenciais", que decorrem na Tenda dos Autores, só tem uma hipótese: assistir pelo "telão", a pouco metros dali, ou entrar aqui. O desânimo de quem é surpreendido pela notícia (um casal espanhol fica literalmente sem palavras...) promete durar pouco tempo. Afinal, esta festa literária também se faz noutras ruas - entrevistas colectivas com os autores na Pousada do Ouro, mais debates na Casa da Cultura, tenda da Filipinha (dedicada à literatura infantil), etc. É a primeira hora da festa. Vamos a isso.

Abertura com Melodia

Nove da noite, quarta-feira, e finalmente chegamos a Paraty - ainda a tempo do concerto de abertura de Luiz Melodia (fantástico...). Ruas cheias, noite quente e conversas tardias entre (e com) os escritores convidados. Horas antes, Roberto Schwarz, crítico literário brasileiro, nascido na Áustria - autor de duas obras clássicas sobre Machado de Assis, Ao Vencedor as Batatas (1977) e Um Mestre na Periferia do Capitalismo (1990) - respondia, na única sessão de ontem, a um dos grandes enigmas da literatura brasileira: sim, Capitu é inocente, ela não traiu Bentinho, em Dom Casmurro, de Machado de Assis (escritor homenageado em ano de centenário). Tiro de abertura perfeito para sexta edição da FLIP.


Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

Paraty, 2.

Montagem da FLIP este ano.

A FLIP oferecerá também, pela primeira vez, conteúdo em vídeos. Para isso, contará com um canal no YouTube, que divulgará on demand trechos de Mesas da Tenda dos Autores e de eventos previstos na programação da Flipinha e da FLIP Etc.
Destaque, ainda, para as «colectivas» de Lucrécia Martel, Fernando Vallejo, Tom Stoppard, Ingo Schulze, Cees Nooteboom, Alessandro Baricco, Pepetela, Zöe Heller, David Sedaris, Neil Gaiman e Pierre Bayard.


Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Paraty

A partir de amanhã, 2 de Julho, o blog estará a fazer a cobertura integral da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Programa principal aqui.

Você pode acompanhar a Flip diariamente por este link. Beijos.Cris.

CM News ! (link)

Proposta que estabelece cotas causa polêmica no Congresso

03/07/2008 - Aprovado na última terça-feira pelo Senado, o projeto de lei que reserva 50% das vagas de universidades federais e instituições federais de educação profissionalizante para egressos da rede pública de ensino chega à Câmara sob pressão do lobby das escolas particulares e sob ressalvas das reitorias das universidades federais. Para o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Amaro Pessoa Lins, o projeto traz o risco de prejudicar o nível do ensino superior público no País.

"É importante pensar em políticas de compensação que ajudem a diminuir as diferenças de oportunidades entre brancos e negros, ou entre estudantes de escolas públicas e privadas, mas muitas universidades já tomaram a dianteira nesse sentido e implementaram políticas de acordo com suas particularidades, com as características regionais."

"Uma iniciativa como a desse projeto esbarra na autonomia dessas instituições e cria a possibilidade de aumento na evasão dos cursos mais exigentes, com a entrada de estudantes sem o necessário preparo."

O projeto garante 50% das vagas do ensino superior federal para quem cursou o ensino fundamental em escolas públicas. Ainda dentro dessa reserva, haverá subcotas específicas para estudantes afrodescendentes e índios, respeitando o percentual dessas populações em cada Unidade da Federação. A Câmara, que passa a analisar o projeto aprovado em caráter terminativo pela Comissão de Educação do Senado, debate desde 1999 proposta semelhante, mas que reserva as vagas apenas a alunos que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas.

"Uma iniciativa para diminuir a distância entre ensino público e privado deve passar pelo investimento na melhoria do ensino público, e não forçando uma janela de entrada desses estudantes nas universidades", critica o presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), José Augusto de Mattos Lourenço.

"Não tenho dúvidas de que o nível do ensino superior vai cair com a implantação de uma medida como essas."

Melhores salários

A Comissão de Educação do Senado aprovou ontem piso salarial nacional de R$ 950 para os profissionais do magistério público da educação básica com carga horária de 40 horas semanais. O benefício será estendido a aposentados e pensionistas da categoria.

O projeto prevê suporte financeiro da União a estados e municípios sem condições de arcar com o reajuste, com recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).

Fonte: Gazeta Mercantil / SP

Terra Magazine ! (link)

2 de Julho: Data Nacional

Paulo Costa Lima


De Salvador (BA)

O Brasil pouco sabe sobre o '2 de Julho' e bem que deveria saber. O que aconteceu na Bahia no dia 2 de Julho de 1823 foi decisivo para todos os brasileiros.

Foi quando o Exército Libertador, tendo à frente o Batalhão do Imperador entrou finalmente na cidade que havia sido sitiada durante meses, sendo recebido com flores e homenagens pela população. Os portugueses, cerca de 4500 homens, haviam abandonado a cidade poucas horas antes, por mar.

Durante muitas décadas firmou-se o entendimento errôneo de que a data representava a 'Independência da Bahia'. Ledo engano. O correto é celebrar a Independência do Brasil na Bahia. Existe neste momento uma proposta em andamento no Congresso Nacional (de autoria da Deputada Alice Portugal, PCdoB-Ba) para a aprovação do '2 de Julho' como data nacional. Nada mais justo!

Basta lembrar que o exército dessa guerra, cerca de 10.000 homens, era composto por soldados vindos de muitas províncias - do Ceará e de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Sergipe, mas também fluminenses, mineiros e paulistas, além dos baianos, é claro, muitos deles filhos da África.

Na verdade, trata-se do nascimento do Exército brasileiro - um fato também pouco celebrado - e do batismo de fogo do seu patrono, o futuro Duque de Caxias.

A cena do 7 de setembro só adquire sua plenitude de sentido com a bravura popular que foi demonstrada na Bahia. Um exército inicialmente comandado por um francês, Labatut, mas que chega ao final do conflito sob as ordens de um brasileiro, Lima e Silva.

O '2 de Julho' é um novelo de narrativas. No plano de fundo, a "narrativa histórica", ou seja, os eventos memoráveis da entrada do Exército Libertador em Salvador no dia 2 de Julho de 1823, que por sua vez se inserem no processo mais amplo da guerra propriamente dita e de seus antecedentes.

Em torno desse núcleo vão se enovelando 185 anos de festividades de rememoração e de interação criativa com esses eventos originais e seus símbolos. E aí entra em cena uma outra dimensão da festa, a rica apropriação que dela fez o povo da Bahia, construindo uma espécie de civismo caboclo.

Fôssemos mais próximos de Hollywood e já teríamos inúmeros filmes projetando mundialmente a temática. Onde encontrar episódios mais marcantes? Uma mártir religiosa (Joana Angélica), batalhões voluntários, escravos lutando por liberdade, uma sertaneja que vira soldado, batalhas navais e campais...

Essa sertaneja que vira soldado - a ilustre Maria Quitéria de Jesus - está a pedir urgente uma mini-série nacional. Uma mulher, entre 25 e 30 anos que viaja cerca de oitenta quilômetros para se alistar, vestida com as roupas do cunhado, de quem se apropria do nome, passando a ser chamada de soldado Medeiros. Aparentemente casa durante o conflito e o marido morre.

Recebe menção explícita de bravura do General Lima e Silva e após a guerra vai ao Rio de Janeiro para ser condecorada por D. Pedro I. Lá no Rio chama a atenção da historiadora Maria Graham, amiga de Leopoldina, que a descreve como uma mulher feminina, sem nada "que desabone sua moral". Sabemos também através desta autora que Maria Quitéria se alimentava de forma comedida, ovos e peixe, e que também enrolava um cigarro de palha após as refeições. Vai ser um sucesso a mini-série!

A mistura de festa popular e comemoração cívica que preenche as ruas de Salvador por ocasião do '2 de Julho' assumiu ao longo dos anos a complexidade de um poli-festival: cívico, político, cultural, religioso e festeiro (há uma longa tradição de batuques, bailes e bandos anunciadores).

Na verdade, o cortejo que sai pelas ruas de Salvador é apenas um dos eventos - a rede festiva se espalha por diversos municípios convocando identidades múltiplas, do vaqueiro ao índio, e antigamente também acontecia em vários bairros e datas distintas, havendo dessa forma '2 de Julho' em agosto, setembro... (uma comunidade de Salvador ainda mantém essa tradição).

Como entidade do panteão afro-brasileiro, o Caboclo recebe atenção especial nesse dia - visitação, bilhetes colocados nos carrinhos polarizam o cortejo, festas de santo - mostrando como os dois universos se interconectaram. Do lado católico há também interação significativa. Basta cantar o Hino ao Senhor do Bonfim: "Glória a Ti neste dia de glória, Gloria a ti redentor que há cem anos. Nossos pais conduziste à vitória, pelos mares e campos baianos...", estamos em pleno '2 de Julho'; o hino é de 1923.

Como festival político tem uma força incrível. Em época de repressão sempre precisou ser controlado com mão de ferro - tentando neutralizar a formação de novas lideranças carismáticas. Nos dias de hoje, de democracia recente, qual a legenda que arriscaria ficar de fora?

Mas vejam que não é coisa nova. Os abolicionistas costumavam anunciar alforrias justamente nesta data. Em 1973, sesquicentenário da festa, quem foi o convidado de honra? O presidente-ditador Garrastazu Médici.

Ou seja, a sacralidade da ocasião, a sacralidade do Caboclo, digamos assim, sempre foi disputada palmo a palmo. Mas de onde vem? Ora, vem do valor que a população atribui à própria festa, seu peso histórico - nosso atestado de nascimento como sociedade política - e graças ao apelo dos seus símbolos, uma resultante da interação centenária com as representações construídas socialmente.

Como diz o pesquisador João Reis, "o Caboclo pode ser visto como uma representação baiana da utopia popular, totem da justiça e da abundância. Afinal, ele representa ou não a vitória sobre a tirania e o estabelecimento do império da liberdade?" Mas também assume a feição de uma entidade com a qual se negocia a difícil sobrevivência cotidiana - Cf. prefácio de Algazarra nas Ruas de Walmira Albuquerque, ambos, livro e prefácio, imprescindíveis.

A potencialização da festa precisa rimar com essa vocação libertária do civismo caboclo. Deve, portanto, evitar o caminho da homogeneização (já temos o exemplo do Carnaval). Deve levar em conta o grande potencial de atrativo histórico e cultural e pensar em termos de um verdadeiro ciclo. Mais importante ainda: deve se apoiar em programas educacionais de peso - embora muito pouco exista nessa direção.

Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.

Raimundo José Pinto ! (link)

Caça aos bois

Maria Tereza Jorge Pádua *

Esse negócio de caçar bois piratas em áreas protegidas na Amazônia, mostra de forma incontestável uma verdade absoluta: as áreas estão invadidas porque não estão manejadas para cumprir os objetivos para os quais foram criadas, ou seja, a proteção da natureza.

A ação do Ministério do Meio Ambiente é justamente a oposta a qualquer medida de bom senso. Caçar bois vai custar caro, então porque não implementar e guarnecer de pessoal as unidades de conservação na região ou em todo o país? Os bois entram em áreas já desmatadas na Amazônia, mesmo que estejam em unidades de conservação, e entram em unidades de conservação porque nada e ninguém os impede. Na grande maioria das vezes entram naquelas áreas protegidas que não foi, ainda, objeto de regularização fundiária.

Como será que está funcionando essa atividade cinegética incomum? Terá o IBAMA (ou o Chico Mendes), já tão assoberbado com o gigantismo de suas tarefas, de aprender mais uma? O que vão fazer com os bois caçados? Transportá-los em balsas ou caminhões alugados? Levá-los em comitivas? Matá-los? Castrá-los? Alugar pastos de outros fazendeiros? Soltá-los em terras públicas? Doá-los? Comê-los? Como vai ficar a parte legal do proprietário dos bois e não das terras? Ou os proprietários de bois e terras em unidades de conservação, que não foram, todavia indenizados?

E como se sentirão os técnicos e guardas do IBAMA? Ridículos, palhaços, ou o quê? O governo vai criar outra carreira no IBAMA - a de boiadeiro, quando nem sequer existe legalmente a de guardas parques, embora o Brasil já possua parques nacionais há mais de setenta anos?

Tenha paciência, senhor Ministro, e constate um fato muito simples: aqueles parques nacionais, ou outras unidades de conservação como estações ecológicas ou reservas biológicas que estão bem manejados no campo, com sua situação fundiária resolvida e que possuem pessoal e equipamento suficientes não estão sendo invadidos por bois, pois estão cercados e aceirados onde devem, como, por exemplo: Parque Nacional da Emas, Brasília, Foz do Iguaçu, Sete Cidades, Ubajara, entre poucos outros.

Desafortunadamente o que tem acontecido no Brasil é que todos nossos governantes vêm criando, via decreto, Parques Nacionais, Reservas Extrativistas e outras áreas protegidas, com certa irresponsabilidade. Ficou banal hoje em dia se estabelecer unidades de conservação, conforme o gosto do freguês e não passam do ato de seu estabelecimento, a ponto de terem os índices mais baixos do mundo em recursos financeiros por hectare e funcionários por hectare.

Assim, não são somente invadidas por gado, mas por palmiteiros, caçadores, madeireiros, garimpeiros, javalis, porcos monteiros, búfalos, cachorros, gatos e, ainda, toda classe de gente que usa com facilidade essas terras de ninguém.

O que precisa ser feito vem sendo dito nas últimas três décadas por todos que se preocupam seriamente com o assunto e por especialistas: coloquem recursos para bem manejar os mais de 70 milhões de hectares em unidades de conservação que o país já tem; criem escolas para preparar adequadamente os guardas parques e universidades que formem técnicos em manejo de unidades de conservação, saiam do discurso e demonstrem que o Brasil pode fazer isso. Pior que pode e nem tão caro fica, pois fica muito mais barato que a construção de UMA grande hidroelétrica e pode ser mais importante economicamente que hidroelétricas. Pode aumentar o turismo receptivo, além dos serviços ambientais como: água limpa, fixação de carbono, fauna e flora nativa, biodiversidade em geral de que tanto a própria agricultura necessita, bem como a biomedicina, a pecuária e a indústria.

Os governos criam parques nacionais ou outras áreas protegidas aos borbotões e quando aparece um empecilho qualquer as extingue como foram os casos dos parques nacionais de Sete Quedas e Paulo Afonso para darem lugar a hidroelétricas. Mudam de categoria, como foi o caso recentíssimo do Parque Nacional dos Pontões Capixabas, que virou monumento natural, pois o governo não precisa necessariamente de comprar as suas terras, ou os entregam a índios, ou a seus remanescentes como os casos do Parque Nacional de Monte Pascoal e o do Araguaia. Pior, ainda, os esquecem completamente como é o caso da esmagadora maioria. Preferem muito mais criar reservas extrativistas, que servem para fazer reforma agrária, ou APAs, que não passam de ordenamentos territoriais, ou florestas nacionais onde a extração de madeiras é permitida, que as verdadeiras áreas protegidas como são os parques nacionais, as reservas biológicas e as estações ecológicas.

As unidades de conservação ou áreas protegidas têm sido usadas por décadas para se fazer demagogia e para mostrar ao mundo a percentagem que o país possui versus sua extensão territorial. Dá para mostrar, pois já estamos perto dos 10%, o que está muito longe do ideal, mas demonstra certa vontade governamental, pois a maior extensão das unidades de conservação foi mesmo obtida nos últimos 8 anos. Mas e daí? Ao visitá-las ou a grande maioria delas, salta aos olhos de qualquer ser humano que elas não têm as mínimas condições de garantir as amostras de ecossistemas para os quais foram estabelecidas. Falta tudo: regularização fundiária de mais de 50% delas; falta pessoal – pois existe 1 funcionário para 200.000 hectares-; combustível (em muitas delas os carros, quando existem, ficam abandonados por falta de gasolina ou álcool), guardas parques, que nem têm preparo adequado ou possibilidade de ascender profissionalmente- o Brasil não tem sequer um Centro de Treinamento no nível federal para dirigentes de unidades de conservação ou de guardas parques. Existem, em pequena escala, ONGs ou mesmo universidades que oferecem treinamentos curtos, no nível de extensão.

Assim, temos até Ministros que se preocupam com bois indevidamente usando unidades de conservação, mas não há como avisá-los sem cercas, e se esquecem que para se evitar a invasão por bois piratas, basta implementar o que já é de sua responsabilidade constitucional, ou seja, as áreas protegidas, assim declaradas pelo Poder Público.

Por que não alardeiam que vão capturar ou matar os búfalos da Reserva Biológica do Guaporé, ou os exóticos teiús do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, ou os cachorros vira-latas que invadem e atacam os animais silvestres do Parque Nacional de Brasília? A resposta é muito simples: não dá IBOPE!

Afinal os bois piratas em unidades de conservação é um de seus menores problemas e pecuária diz respeito a outro ministério. Comprar as terras que permanecem em mãos de particulares onde não devem, ou seja, nas unidades de conservação, este é, sim, o maior problema das áreas protegidas do país.

* Fundadora da Funatura, membro do Conselho da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza e da comissão mundial de Parques Nacionais da UICN. Artigo para O ECO.

Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

CM News !

Errar é humanas

02/07/2008 - Eu só descobri que não entendia nada de matemática quando conversava com um colega russo, no mestrado, sobre o assunto. Aquilo que pra mim exigia um grande esforço mental, de montagem de equações e de tentativa de operações algébricas, para ele era visivelmente algo automático, instintivo, como a construção de uma frase em sua língua natal. Não sei exatamente como os russos ou os asiáticos ensinam a matemática, mas hoje entendo por que o nosso ensino é tão fraco. No Brasil, não se ensina matemática. Se ensina a resolução de problemas matemáticos.

Nossas escolas explicam a mecânica da coisa. Pra somar e subtrair, você "passa um pra lá", "tira um de lá" e pronto, está aí o resultado. Multiplicação é simples: basta decorar a tabuada e, para números maiores, adicionar a mecânica da adição. A divisão é também uma questão quase geográfica: coloque o divisor aqui, o dividendo ali, na "cadeirinha", puxe a tabuada da memória e vá seguindo até que se encontre o resultado e o "resto". Trigonometria é um exercício de decoreba de fórmulas e ângulos. Geometria é como se fosse um quebra-cabeça com algumas peças faltando: basta saber que a soma dos ângulos de um triângulo é 180 graus, ou o teorema de Pitágoras ou a fórmula do raio de uma circunferência para se resolver todo e qualquer problema. Os problemas costumam ser de uma inutilidade total, mais na linha de "um círculo inscrito em um quadrado de lados..." do que "para colocar uma pizza em uma caixa quadrada...".

O problema é fundamentalmente filosófico, epistemológico: a maioria das pessoas entende a matemática como uma ferramenta que precisamos dominar para resolver alguns problemas do cotidiano. Mas a matemática não é isso. A matemática é uma linguagem que descreve o mundo. Todo o mundo físico é traduzível em números, com acuidade muito maior do que a descrição feita por palavras. Além disso, a matemática é a árvore da qual brotam os frutos das ciências exatas: física, química, biologia, estatística, engenharia, medicina - nada disso seria possível sem a matemática.

"Sem uma comprovação empírica, qualquer pensamento é apenas uma tese."

Eu só fui descobrir isso quando já estava no mestrado. De tudo que estudei na vida - e acabei estudando, na faculdade, história, ciência política, psicologia, sociologia, economia, geologia, marketing, administração, contabilidade, crítica literária, filosofia e outras que nem me lembro mais, não apenas por desejo e curiosidade próprias, mas porque o sistema americano impõe essa multidisciplinaridade - hoje vejo que a matéria mais importante é estatística. Achava a matéria um porre quando a cursei, no primeiro ano. O que é natural, aliás: aos 18 anos, o cérebro humano está demasiadamente encharcado de hormônios para que os pensamentos possam nadar. Agora vejo que a estatística é a base de tudo, é o que possibilita a distinção entre a opinião e o fato, a aparência e a realidade (as "formas" platônicas). Sem estatística não pode haver ciência exata nem ciência social. Cada vez mais entendemos que comportamentos que antes podiam ser debatidos apenas por filósofos, romancistas e poetas agora são explicáveis através da aplicação rigorosa de métodos estatísticos. É claro que a estatística não responde as perguntas fundamentais da existência - como viver a boa vida? - mas tampouco o faz a filosofia, com a agravante que uma filosofia desprovida de estatística é apenas um teatro para o duelo de visões antagônicas e insubstanciadas, com resultados potencialmente nocivos. "Errar é humanas", disse um professor de história da arte da Unicamp que me acompanhava em um debate anos atrás, numa daquelas manifestações de auto-ironia que não têm sinceridade nenhuma. Não, errar não é humanas. Há muito acerto - e muito erro - naquilo que se produz nas humanas. O difícil, sem o auxílio da estatística, é separar o joio do trigo. Não é que errar seja humanas, é que a convicção do acerto só pode vir com a ajuda das exatas. Sem uma comprovação empírica, qualquer pensamento é apenas uma tese. Os filósofos e historiadores que me lêem deve estar nauseados, mas mal sabem eles que esse axioma os cerca em todo lugar. Os remédios que eles tomam quando estão doentes só são aprovados ao passar por um processo estatístico que os separe de um placebo ineficaz. Todos os processos produtivos/industriais que geram os bens que consumimos são calibrados e controlados por ferramentas estatísticas de controle de qualidade. As peças dos carros que dirigimos são submetidas a testes estatísticos que asseguram sua confiabilidade. O computador no qual você lê esse artigo só existe por uma ferramenta estatística que determina a sua eficiência. A civilização moderna não é possível sem a estatística. E, ainda assim, está na moda praguejar contra números. Até professores renomados, como esse da Unicamp, podem falar bobagens como "os números são criações humanas e, como tal, têm uma intencionalidade" e se sentir bem, como se não estivessem cometendo um crime intelectual.

Essas idéias me vêm à mente quando vejo que filosofia e sociologia foram incluídas como matérias obrigatórias no currículo do ensino médio. Veja só: nosso sistema educacional é um fracasso tão retumbante que, na última medição em que o desempenho dos alunos foi dividido em níveis, o SAEB de 2003 apontou que 55% dos alunos da quarta série estavam em situação crítica ou muito crítica em leitura, o que quer dizer que eram praticamente analfabetos. A maioria dos alunos que faz a prova de Matemática no SAEB acha que "3/4" é 3,4, e não 0,75. Não entendem nem a notação de uma fração. Achar que esses professores, com essa qualidade, conseguirão ensinar filosofia e sociologia a esses alunos é o que os ingleses chamam de wishful thinking, um otimismo despropositado.

"Se fosse para incluir uma nova disciplina em nosso currículo, adoraria que fosse estatística."

No primeiro semestre da faculdade, li um texto muito bom de Paulo Freire, em que ele dizia que era preciso read the word to read the world (ler a palavra para ler o mundo). Não sei se ele o escreveu em inglês ou se a tradução foi especialmente fortuita, mas o enunciado é verdadeiro: é impossível entender a complexidade do mundo se você não sabe ler. É impossível estudar filosofia se você não sabe ler. Essas aulas serão apenas uma maneira mais escancarada de se praticar o doutrinamento do marxismo rastaquera que impera em nossas escolas. Eu particularmente ficaria muito contente se os nossos alunos saíssem do ensino médio ignorantes de filosofia e sociologia, mas conseguindo ler um texto e entendendo-o, para que tomassem suas próprias conclusões filosóficas ao lerem seus próprios livros. E se fosse para incluir uma nova disciplina em nosso currículo, adoraria que fosse estatística. A maioria dos alunos a detestaria e aprenderia muito pouco, mas talvez uma minoria conseguisse e xtrair daí o ferramental que lhe permitiria julgar, com a sua própria racionalidade, a veracidade das teorias com que são bombardeados na escola, nas ruas, na mídia. O que de melhor pode haver no processo educacional do que a capacidade de não apenas instigar a capacidade de questionamento dos alunos, mas também dar-lhes o instrumental que lhes permitirá solucionar esses próprios questionamentos sozinhos?

Ainda números

Para quem gosta de números e, mais ainda, para quem não gosta, vale a pena ver o filme Quebrando a Banca (assista a crítica do filme no vídeo abaixo), que conta a história verídica de alunos do MIT que se aproveitam da estatística (mais especificamente o ramo da probabilidade) para encontrar uma maneira honesta de derrotar o cassino no jogo de blackjack e ganhar milhões de dólares no processo. O filme saiu de cartaz há pouco em São Paulo, então deve chegar às locadoras em breve. Recomendado para todos os professores de matemática que não conseguem fazer seus alunos se interessarem pela matéria. Quem gostou do filme gostará ainda mais do livro que lhe deu origem, Bringing Down the House, de Ben Mezrich (Quebrando a Banca, na tradução brasileira, da Companhia das Letras).

Outro bom (e pequeno) livro para aqueles que querem gostar de números é Fermat's Last Theorem, de Amir Aczel (que eu saiba, inédito em português. Não confundir com O Último Teorema de Fermat, de Simon Singh).

Fonte: Revista Veja on line

CM News - Publicações !

Ensino Superior

Diploma para Arqueologia
Notícia disponibilizada no Portal www.cmconsultoria.com.br

02/07/2008 - Duas universidades federais criam no Estado as primeiras graduações para futuros arqueólogos

Você gosta de refletir sobre a humanidade? Tem interesse por investigação? Está disposto a buscar vestígios a céu aberto? O seu caminho pode estar na Arqueologia. A boa notícia é que não é mais preciso chegar até o pós-graduação para seguir o ofício. Duas universidades federais gaúchas criaram o curso para acelerar a formação de quem deseja encontrar testemunhos materiais da história e proteger o patrimônio cultural.

Para atender ao crescimento do mercado com as leis ambientais, os currículos se iniciam em agosto no sul do Estado, na Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Com características próprias, os currículos oferecem ao estudante diferentes perfis para a mesma formação. Por isso, antes de escolher a faculdade é preciso conferir a proposta que mais se adapta ao projeto pessoal de graduação (confira na página 2).

E, para quem ficar com dois corações, ainda há uma sugestão: Queremos facilitar para que os alunos possam circular entre as universidades e trabalhar juntos em futuros projetos no sul do país. A arqueologia cresce dentro e fora do Brasil e os cursos traduzem a transformação do mercado na área humanística - diz Fábio Vergara Cerqueira, diretor do Instituto de Ciências Humanas da UFPel, que encerra hoje as inscrições pela internet(ces.ufpel.edu.br/vestibular).

Arqueólogo e historiador, Fábio aposta na formação do arqueólogo com o reforço da antropologia - a ciência que estuda as relações entre teorias, conceitos e métodos de investigação social. Na universidade, o curso de Arqueologia será uma habilitação do currículo de Antropologia, seguindo o modelo de universidades norte-americanas e latino-americanas. Conforme o professor, nos Estados Unidos e em outros países, essas ciências estão ligadas há aproximadamente meio século na universidade.

Na Furg, a graduação será em Arqueologia, com duas linhas temáticas que poderão ser opção do aluno: Arqueologia das Sociedades Pré-coloniais Americanas e Arqueologia do Capitalismo. Para chegar ao diploma, o aluno da Furg também terá de cumprir um mínimo de 60% da carga horária com disciplinas optativas.O estudante poderá escolher o que mais lhe interessa na pesquisa. O mercado está em expansão e precisamos formar profissionais. Muitos sítios estão sendo perdidos por falta do arqueólogo - diz Beatriz Thiesen, arqueóloga e coordenadora do curso da Furg.

(lucia.pires@zerohora.com.br )

LÚCIA PIRES
Mais

Até agora, o trabalho em sítios arqueológicos era feito por pós-graduados, técnicos e alunos do curso de História. Na foto, alunos da UFRGS atuam em escavações no sítio Pilger, no município de Harmonia, cujas datações são de 8 mil anos atrás. A gruta era ocupada como acampamento de caça às margens do Rio Caí pelos primeiros indígenas que habitaram o Rio Grande do Sul.

Fonte: Zero Hora - RS

Terra Magazine (link) !

Comitê denuncia violência contra índios isolados

Google Earth/Reprodução
Imagem de satélite mostra malocas e roçados abertos por índios isolados que, segundo entidade, fugiram de madeireiros do Peru
Imagem de satélite mostra malocas e roçados abertos por índios isolados que, segundo entidade, fugiram de madeireiros do Peru

Altino Machado
De Rio Branco (AC)

Os índios isolados da fronteira Brasil-Peru estão sendo vítimas de madeireiros ilegais que incendeiam suas malocas, os perseguem, capturam e assassinam, denuncia o Comitê Indígena Internacional para a Proteção dos Povos Indígenas em Isolamento Voluntário da Amazônia, do Grande Chaco e Região Oriental do Paraguai (Cipiaci). O Comitê baseia-se em investigações de uma comissão integrada por dirigentes e técnicos do próprio Cipiaci, da Federação Nativa do Rio Madre de Dios (Fenamad) e da brasileira Associação Ashaninka Apiwtxa do Río Amônia.

Elias Pinto !

Taxista desbussolado

Se beber, não dirija, e torça para que o motorista de seu táxi faça o mesmo

Então fica combinado. Quando o dia for de tomar umas e outras, não havendo condições de revezar ao volante, a opção é voltar de táxi.

Bem, como não tenho carro (no entanto, no tempo em que andei motorizado, confesso, fui muitas vezes imprevidente, mas sobrevivi, felizmente não machuquei ninguém, e aprendi a lição), naturalmente, retorno de táxi. E há ocasiões em que nem voltar a pé, o que costumo fazer, é lá muito seguro, ainda mais nesse trânsito criminoso e por essas calçadas sem lei.

Pois estávamos eu e minha mulher, relaxados, num bar e restaurante no centro da cidade, no bairro de Nazaré. Brindávamos ao prazer de estar juntos.

Não era tarde (sou um ecumênico boêmio vespertino, como sabem os amigos) quando resolvemos seguir para casa. Em vez de vir caminhando, chamamos o primeiro táxi que enxergamos, e que faz ponto próximo ao bar.

Entramos no carro a bordo de uma acalorada conversa sobre um tema que agora, sóbrio, já não lembro – amnésia, digamos, protocolar, ainda mais que o episódio aqui referido não é tão recente, aconteceu há uns dois meses.

Demos o endereço e, absorvidos pelo assunto, não demos pelo motorista, quando este, um quarteirão depois, entoou um “callllmaaaaa”, assim, aflautado, como quem soasse o gongo e desapartasse o pega verbal instalado no banco de trás, mandando cada pugilista para o seu córner.

Foi quando passamos a prestar mais atenção no taxista. Ele não parava de se mexer e gesticular, embaralhava-se ao volante, ainda que mantivesse um mínimo de prumo na direção, até pelo ritual mecânico que anos ou décadas de profissão (não era novo o motorista) haviam lhe doado.

Ele não avançava sinal (pelo menos isso). Ao contrário, brecava praticamente em todas as esquinas, como quem hesitasse, e depois seguia, como que em acessos de tosse, o carro (e só então também percebemos que o veículo não estava lá muito bem conservado, o vidro não baixava, o estofado era gasto, um aspecto geral de desleixo) acompanhando, aos solavancos, a condução errática.

Sem querer acreditar no que as evidências mostravam, suspeitamos que o nosso condutor não batia bem da bola, estava (apenas) lelé. A voz saía-lhe engrolada, tão desbussolada quanto o rumo da conversa que tentava imprimir.

No terceiro ou quarto quarteirão, admitimos o que não dava mais para negar: o taxista estava de pileque, muito mais para lá – não diria de Bagdá (onde o álcool é vetado) – do que seus passageiros.

No quinto quarteirão já estávamos completamente lúcidos, antenados ao que se passava em torno, o sinal, os carros, os pedestres, e, principalmente, ao que se passava com a cabeça do nosso aloprado piloto, sem descuidar de suas mãos, que, descompassadas, regiam o samba do motora doido.

Por um momento pensei em me lançar ao volante com um salto tigrino – não como um legítimo tigre de Bengala, mas um de bengala branca de Santa Luzia. Mas acabaríamos sem timão (não estou me referindo ao Corinthians, veja lá) e, desgovernados, à deriva, invadiríamos calçadas, abalroaríamos (eita, quase não sai) outros carros.

O mais sensato seria mandar parar o carro e descer, mas era exatamente o que faltava dentro daquele táxi, sensatez, tanto no banco da frente quanto no de trás. E como já havíamos percorrido mais da metade do caminho, resolvemos, literalmente, pagar para ver.

Só ao chegarmos em casa, aos trancos, soluços e barrancos, foi que, motorista e passageiros, descobrimos que o taxímetro não havia sido acionado. Por um momento pensei em cobrar em vez de ser cobrado, diante do risco que havíamos corrido. E tenho a impressão que ele, o motorista, aceitaria pagar.

Quase um mês depois desse episódio, de volta ao bar em que tudo começara, revimos o motorista. Realmente, ele fazia, e ainda deve fazer, ponto no local. Lá estava o lúgubre táxi, estacionado, já um tanto quanto rodado, sambado, o que não atentáramos da vez anterior. Desta vez, o taxista parecia sóbrio. Foi quando atravessou a rua, aproximou-se do bar em que estávamos e alguém lhe passou uma garrafa de cerveja. Pronto, reiniciara tudo de novo, mas agora testemunhávamos o marco zero, a explicação e princípio daquela desguiada aventura, que, agora, precavidos, não tornaríamos a embarcar.

A recomendação continua: se beber, não dirija. E torça para que o motorista de seu táxi faça o mesmo.

P.S.: Aproveitando o embalo do papo etílico, de que comungava o nosso amigo agora partido, ergo um brinde à memória do jornalista e escritor Ronaldo Bandeira Santos, que se foi na segunda-feira. A segunda sempre foi difícil de encarar, não é, Bandeira, que um dia, numa festinha lá no apartamento do seu xará, Ronaldo Franco, encarnou um inesquecível e impagável John Travolta. Um dia conto dessa performance. Além do lugar à mesa, vou sentir falta do Bandeira reaparecendo, depois de vasta ausência, pedindo texto para um novo projeto de revista.

Fonte: Diário do Pará

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Raimundo José Pinto ! (link)

Contra um modelo predatório

Por Carlos Minc*

Nossa luta não é contra o índice de desmatamento do mês anterior, é contra um modelo predatório, que empobrece o povo e destrói a biodiversidade. Enfrentamos desafios na primeira semana de governo: a 9ª Conferência sobre a Biodiversidade, em Bonn, e a reunião de Governadores em Belém. Em Bonn, a posição do Brasil estava sob bombardeio: o aumento de índices de desmatamento, a saída da Ministra Marina Silva e a negativa da delegação brasileira de discutir impactos ambientais do etanol e do biodiesel, o que nos colocou no isolamento.

Acertamos com o Itamaraty a mudança de tática, distinguindo os ambientalistas do lobby europeu que pretendia impor barreiras protetoras do seu álcool de beterraba e do seu biodiesel de grãos, ambos sem competitividade. Aceitamos discutir impactos em organismos técnicos como indicativos aos países, mas sem exigências condicionantes às importações. Exigimos análise dos impactos sobre a biodiversidade dos combustíveis fósseis, como a chuva ácida, que afeta florestas e animais.

No plenário, com 90 Ministros de Meio Ambiente, alertamos que havia sido obscurecido e entravado o regime de acesso e a repartição de benefícios sobre os usos da biodiversidade. Há o compromisso de este entrar em vigor em 2010, mas havia resistência dos países ricos, que não garantiam recursos, equipes, cronogramas para viabilizar essa meta. Questionamos esse boicote, pois eles não queriam pagar pelo que hoje obtêm de graça; seus laboratórios garimpam sementes e plantas, sintetizam seus princípios ativos e nos cobram royalties e patentes por toda a vida. Desafiamos os países ricos a reverterem suas posições, ou estimulariam a biopirataria. Com o apoio de outros países demos passos para garantir a meta de 2010, importante para o Brasil, em especial para a Amazônia.

Na reunião do Fórum dos Governos da Amazônia estavam em causa as obras do PAC, de saneamento e infra-estrutura e a execução do Plano Amazônia Sustentável (PAS); e a reação de alguns governadores às medidas anunciadas pelo governo Lula para conter a devastação, sobretudo a Resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) e do Banco Central (BACEN) de não conceder crédito, a partir de 1º de julho, às empresas que não comprovarem regularização fundiária e ambiental.

Antes do Fórum, conversamos com seis governadores, detectamos suas demandas, e agimos para oferecer respostas ambientais, evitando um confronto. Inserimos numa medida provisória o preço mínimo para os produtos extrativistas, antiga demanda da região que permitirá que o setor se capitalize, saindo da dependência dos atravessadores, garantindo vida digna a 5 milhões de trabalhadores.

Incluímos no Fundo Amazônia, que será criado em um mês, a recuperação das áreas desmatadas e a manutenção da floresta em pé; ampliamos para 134 milhões de reais o reforço para produção e comercialização dos produtos extrativistas. Garantimos apoio à conclusão do Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) da região até o final de 2009; com o apoio do Ministério do Meio Ambiente, Rondônia e Acre já concluíram, e Maranhão, Pará e Mato Grosso estão finalizando. Ampliamos recursos para saneamento e resíduos sólidos para os estados. Fomos saudados no Fórum ao anunciarmos essas medidas e apenas um Governador insistiu em derrubar a decisão do BACEN.

O bioma Cerrado não foi excluído dessa deliberação, pois desde sua edição, em 29 de Fevereiro de 2008, esta se reportava exclusivamente ao bioma Amazônia. Estamos elaborando solicitação ao CMN para estender essa Resolução, com as devidas adaptações, aos biomas Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pantanal.

Não deve receber crédito subsidiado quem não regularizar sua terra e demarcar sua reserva legal. Nunca flexibilizamos a deliberação do CMN, pois nenhum Ministro tem esse poder. No CMN tem assento vários ministérios e só este tem poder de rever suas decisões. Os limites do bioma Amazônia foram definidos pelo IBGE e incluem 527 municípios e cerca de metade do território brasileiro. Noventa e dois municípios têm áreas (e produtores) dentro e fora do bioma, sendo que a resolução do CMN/BACEN atinge somente os de dentro. A Lei determina que, em primeira instância, cabe aos estados aferir essa situação, cabendo ao IBAMA e ao Ministério Público a fiscalização. Caso algum dos três Secretários de Meio Ambiente (os outros seis Estados estão integralmente dentro do bioma Amazônia) atestar em falso, o que não creio, responderá por falsidade ideológica e crime ambiental, perdendo o emprego e a liberdade.

A outra opção seria desastrosa: destinar metade dos 450 agentes do IBAMA na Amazônia (insuficientes para defender Parques Nacionais, Reservas Extrativistas, e atuar com a Polícia Federal no Arco de Fogo, e com outros 12 ministérios no Arco Verde) para atender seis mil agricultores, checar documentos, e atestar se estes (de um universo de centenas de milhares de produtores) estariam dentro ou fora da linha do IBGE.

Desde 15 de junho, siderúrgicas, madeireiras, frigoríficos, agropecuárias terão de informar seus fornecedores e serão co-responsáveis por seus eventuais crimes ambientais. Assim, tratarão de fiscalizar e modernizar suas cadeias produtivas, o que é necessário, pois só com IBAMA e PF não reverteremos a devastação. Dia 17 os exportadores de óleos vegetais renovaram por um ano a moratória de não comprar soja resultante do desmatamento da Amazônia. Governos estaduais assinarão termos de cooperação para transportar e leiloar produtos ilegais apreendidos, como madeira e grãos. A defesa da Amazônia exige um esforço enorme de todo o País, e as metas dessa mobilização estão sendo delineadas.

* Carlos Minc é Ministro do Meio Ambiente. Artigo para a ECO 21

Terra Magazine - I (link)

De livros sobre cinema

André Setaro
De Salvador (BA)

Quando, na década de 60, comecei a freqüentar o Clube de Cinema da Bahia, programado pelo ensaísta Walter da Silveira, e vim a constatar que o cinema, mais do que um simples espetáculo, era, também, uma expressão artística, escassa a bibliografia sobre o assunto para aqueles que queriam se iniciar. Os raros livros existentes, e em selecionadas livrarias, batiam na tecla de que o cinema é uma arte e procuravam dar os rudimentos de sua linguagem. Os estudos semióticos encontravam-se nos seus primórdios na Europa e aqui não se alastraram nesta época.

Os métodos críticos, a crítica estruturalista, textual, etc, precisaram esperar uma década para que fossem publicados, a exemplo dos livros de Christian Metz e Jean Mitry. Quem queria ler sobre cinema tinha que se contentar com as boas críticas dos jornais, principalmente as que saíam no Correio da Manhã e O Estado de S.Paulo, e, mais adiante, no Jornal do Brasil, e contar com os "manuais de sobrevivência", a exemplo de "O Cinema, sua arte, sua técnica, sua economia", do célebre historiador francês Georges Sadoul, da Editora da Casa do Estudante do Brasil, traduzido por Alex Viany. Ou com os publicados pela Agir: "Iniciação ao cinema", de J. P. Chartier e R.P.Desplanques ofereceu um certo embasamento introdutório às coisas do cinema, entre outros desta editora, pioneira no lançamentos de obras sobre a chamada sétima arte, como os escritos do Padre Guido Logger.

Sobre o cinema nacional, havia um livro pioneiro, de pesquisa exaustiva, hoje um clássico já reeditado várias vezes, "Introdução ao cinema brasileiro", de Alex Viany, cuja primeira edição saiu pelo Instituto Nacional do Livro (INL). Em 1963, Glauber Rocha em "Revisão crítica do cinema brasileiro" causou a polêmica necessária ao atacar o inatacável "O cangaceiro", de Lima Barreto, dizer que "Limite", de Mário Peixoto, não passava de um mito, entre outras diatribes peculiares ao controvertido cineasta e animador. Alguns anos se passaram para Jean-Claude Bernardet, como se descobrisse o gênio da lâmpada, afirmasse, em "Brasil em tempo de cinema" (1967), que os filmes do Cinema Novo refletiam a mentalidade classe média de seus autores.

Mas sobre o cinema internacional, sua evolução histórica, havia o indispensável "História do Cinéma Mundial", de Georges Sadoul, em dois volumes, uma redução dos oito ou nove volumes originais publicados na França pelo historiador, o alentado "Histoire du Cinema Mondial", numa tradução e "redução" de autoria de Sonia Salles Gomes, e editado pela Martins. Nele se tomou conhecimento da invenção do "cinematógrafo" dos Irmãos Lumière, dos primórdios, de Georges Méliès, da importância de Griffith como pai da narrativa cinematográfica, do expressionismo alemão, do neo-realismo italiano, etc.

Em meados da década de 60, numa iniciativa pioneira da Civilização Brasileira, à frente o intimorato Ênio Silveira, foi criada uma coleção, a Biblioteca Básica de Cinema (BBC), quando se teve a oportunidade de conhecimento de teóricos importantes da arte do filme. Bem editados, com índice remissivo, os livros da BBC fizeram a alegria daqueles que estavam impossibilitados de ler algo mais profundo sobre a linguagem e a estética cinematográficas (e receber livros do exterior era um processo difícil e demorado bem diferente dos dias de hoje, quando a internet "lh